História da cartomancia · por Thainá Furtado
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Por que a cartomancia sempre foi coisa de mulher: história e dados

Existe um dado que poucas pessoas param para pensar: o mercado de espiritualidade no Brasil é majoritariamente movido, estudado, ensinado e consumido por mulheres.
01Os números de hoje
R$ 21,5 bilhões
é o que o mercado de espiritualidade movimenta por ano no Brasil
4 em 10
mulheres entre 18 e 49 anos nos EUA dizem acreditar em astrologia (Pew Research)
+40%
de alta na categoria de esoterismo e ocultismo no Mercado Livre em 2025
O Tarot é a prática espiritual mais buscada no país, segundo levantamento da Band em parceria com o Google divulgado em 2025.
E quem está comprando, estudando e praticando? Majoritariamente mulheres.
É um padrão que tem séculos.
02Por que as mulheres e as cartas: a história que explica o presente
O que restou fora das instituições
Durante séculos, às mulheres foi negado acesso à educação formal, à filosofia, à medicina, ao direito, à política. O conhecimento institucional era espaço masculino e religioso.
O que restou para as mulheres? As cartas. Os astros. As plantas. Os rituais. Espaços de conhecimento que existiam fora das instituições que as excluíam.
A cartomancia não era superstição de mulher ignorante. Era o espaço de conhecimento que sobreviveu à exclusão.
Era onde a mulher podia saber, podia curar, podia ser ouvida, podia exercer poder sobre a própria vida e a vida de outras.
03A caça às bruxas: o que estava realmente em jogo
1550–1630 · Silvia Federici
Entre 1550 e 1630, no período mais intenso da caça às bruxas europeia, a imensa maioria das pessoas acusadas e executadas foram mulheres.
A historiadora Silvia Federici documenta em seu livro “Calibã e a Bruxa” algo que a narrativa popular sobre esse período costuma omitir: as mulheres que foram perseguidas não eram perigosas pelo que faziam de errado. Eram perigosas pelo que faziam de certo.
Elas curavam. Elas sabiam. Elas lideravam comunidades. Elas criavam redes de conhecimento e apoio que funcionavam sem a permissão das instituições que as excluíam. Elas partejavam, elas aconselhavam, elas previam e tudo isso era poder real que o sistema não controlava.
A caça às bruxas destruiu esses espaços deliberadamente. Criminalizou as práticas que as mulheres realizavam. Fragmentou as redes comunitárias femininas.
A cartomancia estava nessa lista. Prever, ler, saber o que estava por vir, isso era poder. E poder feminino era ameaça.
04Mlle Lenormand: presa por saber demais
Seis prisões · nenhum crime

Marie Anne Lenormand foi a cartomante mais famosa da história. Atendia Napoleão, Josefina, líderes políticos da Europa. Era consultada antes de decisões que mudaram o curso da história.
Ela foi presa seis vezes pela polícia francesa.
Não por crime. Por cartomancia. Por exercer o conhecimento de prever e nomear o que estava acontecendo numa época em que isso era ameaça suficiente para justificar prisão.
05Os salões parisienses: espaços de poder feminino
Século XIX · as salonnières
No século XIX, quando a Vera Sibilla estava sendo criada na Itália, os salões parisienses eram os grandes centros de poder intelectual e político da Europa.
E eram espaços predominantemente femininos.
As anfitriãs dos salões (chamadas de salonnières) eram as mulheres que reuniam filósofos, escritores, cientistas e políticos, que mediavam os debates, que conectavam as ideias e as pessoas. Num mundo onde as mulheres não podiam votar, não podiam ter cargos públicos, não podiam publicar sob o próprio nome na maioria dos casos, o salão era o espaço de poder que lhes restava.
A cartomancia nasceu nesses espaços. Era prática dos salões, não entretenimento frívolo, mas ferramenta de conhecimento e conexão usada por mulheres que não tinham acesso a outras formas de saber institucional.
06O retorno: o que está acontecendo agora
Correção histórica em andamento
As mulheres que hoje estão estudando cartomancia, construindo negócios de espiritualidade, tornando-se referências nesse mercado, estão fazendo exatamente o que as mulheres faziam antes de serem perseguidas por isso.
Estão acumulando conhecimento. Estão criando comunidade. Estão construindo formas de saber que não dependem das instituições que as excluíram.
O mercado de espiritualidade que movimenta bilhões hoje não é coincidência nem modinha. É uma correção histórica em andamento. É o retorno ao que sempre foi espaço feminino, agora com a legitimidade que o sistema antes negava.
A cartomante que hoje atende online, que tem curso na internet, que constrói uma carreira com método e pesquisa, está na linha direta das mulheres que Mlle Lenormand representou. Das curandeiras que foram perseguidas. Das salonnières que criaram espaços de conhecimento quando os outros estavam fechados.
O espaço sempre foi nosso. O que mudou é que agora ninguém pode nos prender por ocupá-lo.
07Uma pergunta para levar
O que você coloca dentro dele
Da próxima vez que alguém tratar a cartomancia como coisa de mulher sem substância: como entretenimento, como superstição, como fuga da realidade, vale lembrar o que está por trás dessa frase.
As mulheres que faziam isso foram presas. Foram queimadas. Foram silenciadas por séculos exatamente porque o que faziam tinha substância demais. Poder demais. Conhecimento demais.
O que é fuga da realidade não precisa ser suprimido. O que ameaça o sistema precisa ser eliminado.
A cartomância sobreviveu porque resistiu. Porque foi passada de mão em mão, de geração em geração, guardada por mulheres que entenderam que o conhecimento que carregavam era valioso o suficiente para proteger.
E a pergunta que fica é essa: o que você está fazendo com o espaço que essas mulheres custaram a vida para abrir?
Porque ele existe. Está aberto. E é seu.
O que você vai colocar dentro dele?
Para conferir cada dado e cada nome citado acima
Fontes e leituras recomendadas
Dados do mercado de espiritualidade no Brasil
- Levantamento da Band em parceria com o Google (Sala Digital), abril de 2025 — Tarô como prática espiritual mais buscada no Brasil. Disponível em: band.com.br/sala-digital/noticias/taro-lidera-pesquisas-google
- Nubimetrics / Mercado Livre, 2025 — Alta de 40% na categoria Esoterismo e Ocultismo no e-commerce brasileiro.
- O Tempo / ABC da Comunicação, outubro de 2025 — Mercado espiritual e religioso movimenta R$ 21,5 bilhões por ano no Brasil. Disponível em: abcdacomunicacao.com.br
Caça às bruxas e história das mulheres
- FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Editora Elefante, 2017. (Publicação original em inglês: 2004.)
Mlle Lenormand
- Marie Anne Lenormand (1772–1843), referência histórica amplamente documentada. Para aprofundamento: DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Nova York: St. Martin’s Press, 1996.
Os salões parisienses como espaço de poder feminino
- GOODMAN, Dena. The Republic of Letters: A Cultural History of the French Enlightenment. Nova York: Cornell University Press, 1994.
Secularização da cartomância como profissão no Brasil
- CAVALCANTI, Ana Paula Rodrigues. Taromancia, what do we know? A brief analysis of today’s taromancy in Brazil. Revista de Estudos da Religião — REVER, PUC-SP, v. 23, n. 2, 2023. Disponível em: revistas.pucsp.br/index.php/rever/article/view/58867
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